O crepúsculo de Drácula – Stephanie Meyer

Texto escrito por Rodrigo Salem foi retirado na integra da revista Bravo (que eu recomendo:D) do mês de Dezembro/2009.

Cada época tem o Drácula que merece. As histórias de vampiro se incluem naquela categoria de mitos duradouros que, recontados de forma diferente em cada era, dizem muito sobre o espírito de seu tempo. Seguindo essa linha de pensamento, como interpretar o sucesso da saga literária Crepúsculo, da autora americana Stephanie Meyer – cujo subproduto mais recente, o filme Lua Nova, está em cartaz nos cinemas brasileiros? O que vampiros vegetarianos, que usam seus caninos afiados para perfurar alface e rúcula, têm a dizer sobre os tempos atuais? Para responder a essas perguntas, é necessário ir às origens do mito. Os primeiros relatos sobre as criaturas que um dia seriam conhecidas pelo nome de “vampiros” surgiram por volta do século 12. Durante mais de 200 anos, a superstição sobre o homem morto que volta à vida após o pôr do sol se disseminou pela Europa. A lenda começou a virar objeto de interesse cultural apenas no começo do século 19, quando o ítalo-britânico John Polidori escreveu o conto The Vampyre para a publicação inglesa New Monthly em 1819. O nobre errante que atraía mulheres inocentes para se alimentar de seu sangue foi inspirado em um companheiro de viagens chamado George Gordon Byron. Sim, ele mesmo, Lord Byron, o poeta que escreveu a mais arrebatadora versão do Don Juan (outro mito que atravessa eras) – e que se tornou popstar em sua época tanto pelos versos quanto pela vida aventurosa. De onde se depreende que a figura literária do vampiro é, na origem, romântica.

Em sua primeira encarnação literária importante, no entanto, o vampiro nada tinha de sedutor. Cada época, já se disse, tem o vampiro que merece, e o da era vitoriana é o Drácula, protagonista do romance de Bram Stoker escrito em 1897. Para confrontar a moral puritana daquele tempo, o autor criou um personagem que tinha mau hálito, pelos nas palmas das mãos e bigodinho branco. Todas essas características foram atenuadas na primeira versão cinematográfica do livro. O Drácula interpretado por Bela Lugosi no cinema, em 1931, tinha aspecto elegante, sotaque estrangeiro charmoso e modos formais. Apesar de ter formado a figura icônica do vampiro-mor, Bela Lugosi o interpretou desprovido de sexualidade. Essa pegada casta tem a ver com o fato de esse vampiro representar outra época, a da Grande Depressão. O filme não podia correr riscos financeiros em um mundo abalado pela crise de 1929.

O Drácula como conhecemos, de caninos afiados e mordidas no pescoço de belas mulheres, só ganhou esse aspecto no final da década de 50, quando foi encarnado no cinema por Christopher Lee. A força sexual do conde vampiro era evidente. Numa época em que o sexo era controlado por pensamentos autoritários, Lee mostrou suas presas antes de se debruçar no corpo entregue de sua amada, Mina Murray. Era a figura do libertino que a estudiosa Carol Fry, autora do artigo Fictional Conventions and Sexuality in Dracula (“Convenções Ficcionais e Sexualidade em Drácula”), publicado em 1972, dizia ser representada pelo homem que deixava marcas na mulher e a infectava a ponto de a vítima se tornar uma pária social. Mas o significado mais óbvio era o retrato do sexo enrustido da década de 50, um sexo reprimido sob a luz do dia, mas solto e tórrido no escuro do quarto.

Passado o período da revolução sexual, nos anos 60, esses seres românticos e calientes puderam finalmente se expressar livremente – e a figura do vampiro chegou a seu auge artístico em duas grandes obras-primas do cinema. A primeira é Nosferatu, O Fantasma da Noite, de Werner Herzog, de 1979. Poucas imagens são mais eróticas do que o corpo arfante de Isabelle Adjani no momento em que o vampiro de Klaus Kinski aproxima as presas da carne branquíssima de seu pescoço, num fotograma que lembra um quadro expressionista. “Não poder envelhecer é terrível. A morte não é o pior. Imagine durar séculos, vivendo a cada dia a mesma futilidade”, diz o personagem em sua fala mais famosa.

O outro é o Drácula de Francis Ford Coppola, de 1992. Com o fim da era Reagan, o cineasta decidiu equilibrar a sedução do elegante conde vampírico, agora na pele charmosa de Gary Oldman, com sequências sexuais picantes. Provocou o Jonathan Harker de Keanu Reeves com três voluptuosas vampiras — uma delas, a atriz Monica Bellucci, no começo da carreira -, criou uma cena de bestialismo entre o Drácula semitransformado e a garota Lucy Westenra (Sadie Frost) e até chegou ao ponto de imaginar Mina (Winona Ryder) seduzindo Van Helsing (Anthony Hopkins). Apesar do apelo sexual, Drácula era um vampiro com o sentimento humano em busca do amor eterno. Era o reflexo da juventude que abraçou o Nirvana, principal banda do movimento roqueiro grunge – um ritmo cru em sua forma, mas extremamente romântico em sua natureza e letras.

De certa forma, a autora Stephanie Meyer captou o espírito dos adolescentes do nosso tempo quando lançou o primeiro capítulo da tetralogia literária Crepúsculo. O romantismo do Drácula de Gary Oldman agora ganhava uma versão assexuada na adaptação do fenômeno para as telas em 2008. Edward (Robert Pattinson), o grande amor proibido da humana Bella (Kristen Stewart), não morde pescocinhos e tem o corpo brilhante como diamante ao se expor ao sol. Vampiros ecológicos, politicamente corretos e vegetarianos. Você consegue imaginar algo melhor para representar a adolescência emo, que procura respostas para a depressão pós-moderna em príncipes encantados que mudarão suas vidas chatas? OK, cada época tem o vampiro que merece, e os livros e filmes da série Crepúsculo até têm um ou outro momento divertido. Parafraseando Nosferatu, no entanto, pior do que morrer no auge é enfrentar uma longa e lenta decadência. Como essa dos vampiros que, privados de seu alimento vital – romantismo, sexo e sangue – parecem condenados a viver um eterno e tedioso crepúsculo.

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